A reprodução assistida deixou de ser uma alternativa restrita a poucos casos e passou a ocupar espaço consolidado na medicina reprodutiva. Um estudo publicado em 2025 na revista científica Fertility and Sterility estima que entre 9,8 e 13 milhões de crianças já nasceram no mundo com o auxílio de técnicas como a fertilização in vitro (FIV).

O Brasil acompanha esse movimento global. Líder na América Latina, o país concentra cerca de 40% dos centros especializados da região e já contabiliza aproximadamente 83 mil bebês nascidos por métodos de reprodução assistida ao longo de 25 anos, segundo dados de entidades do setor.

A expansão é sustentada por números recentes. Somente em 2021, foram realizadas mais de 45 mil fertilizações in vitro no país. Nos últimos dez anos, o total ultrapassou 384 mil ciclos do procedimento, com cerca de 36 mil gestações registradas entre 2020 e 2021.

Um dos fatores que impulsionam esse crescimento é o aumento da procura por tratamentos entre mulheres acima dos 40 anos. O adiamento da maternidade e a queda da taxa de fecundidade têm ampliado a demanda, inclusive pela doação de óvulos, que hoje responde por mais de 12% dos nascimentos por FIV no Brasil.

O cenário contrasta com os dados demográficos recentes: em 2023, o país registrou o menor número de nascimentos desde 1976, com cerca de 2,5 milhões de partos, enquanto os procedimentos de reprodução assistida seguem em trajetória ascendente.


O sonho possível mesmo com doença autoimune

A farmacêutica Miriam Prado é uma das mulheres que recorreram à técnica. Portadora de lúpus — doença autoimune que pode comprometer a fertilidade e exige acompanhamento rigoroso durante a gestação — ela passou por dois tratamentos até conseguir engravidar.

Após ajustes no acompanhamento médico e no controle da doença, Miriam conseguiu a gestação por meio da FIV. Depois de uma perda gestacional inicial, a segunda tentativa resultou no nascimento da filha Maria Vitória. Posteriormente, a implantação do último embrião culminou no nascimento do filho José Henrique.

Ela engravidou após os 35 anos, fase em que a fertilidade feminina naturalmente começa a diminuir — realidade que tem levado cada vez mais mulheres a buscar alternativas na medicina reprodutiva.


Técnica consolidada na prática médica

Para o médico João Guilherme Grassi, especialista em reprodução humana e integrante da equipe do pioneiro da FIV no Paraná, Karam Abou Saab, os números indicam uma mudança estrutural.

“Quando falamos em milhões de nascimentos no mundo e dezenas de milhares no Brasil, estamos diante de uma tecnologia incorporada à prática médica. Isso muda a forma como a sociedade enxerga a infertilidade”, afirma.

Segundo o especialista, o próximo desafio é ampliar o acesso e reduzir desigualdades. “É necessário integrar esses serviços às políticas públicas de saúde, garantindo que mais mulheres e casais tenham acesso ao tratamento, independentemente da condição financeira.”

Com números crescentes e histórias que refletem transformações sociais e demográficas, a reprodução assistida deixa de ser exceção e passa a integrar, de forma definitiva, a discussão sobre saúde reprodutiva no Brasil.

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